Será normal?

porAna Raquel Velosoem Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

 

Será normal que num casal um dos elementos controle todos os passos do outro? Que lhe retire o acesso à gestão do seu dinheiro? Que de forma intencional e deliberada tenha acesso a todos os seus trajetos e percursos? Que possua todas as suas senhas e passwords para que possa controlar o que o outro faz, onde faz e com quem faz?

Estes são exemplos que povoam algumas das histórias que profissionalmente oiço. As situações a trabalhar podem ser muitas e variadas, mas a verdade é que ultimamente estes casos têm estado mais presentes… Estas situações não são novas, sempre existiram. No entanto, hoje com as novas tecnologias, estas assumem outros contornos.

Quando oiço estas histórias, na maioria das vezes o que me espanta é a forma como ‘a vítima’ me diz: ‘Pensei que tudo isto era normal’ ou ‘Não sabia que não era normal’.

Ora, o que é normal ou não, é difícil de definir. Normal poderá dizer de acordo com a norma, mas a que norma nos referimos? Se nos estivermos a referir ao facto de existirem outras pessoas a fazer o mesmo, quiçá até possa ser normal.

No entanto, nestas situações não me parece importante saber se está ou não de acordo com uma norma ou se é normal. O que me parece importante perguntar nestas situações é: Isso é feito com que intenção? Interrogarmo-nos sobre o propósito e objetivos desse comportamento, perceber por que motivo é feito e com que intenções é bem mais profícuo. Achar normal é aceitar com resignação, perguntarmo-nos porquê é procurar respostas que permitem a resolução. Estes são caminhos bem diferentes!

Então agora perguntemo-nos: Por que motivo tem alguém necessidade de controlar todos os passos de outra? Por que motivo uma pessoa precisa de limitar a liberdade de outra?

Aqueles que possam estar a pensar que a resposta pode ser por amor desenganem-se. Para mim a resposta a estas perguntas é apenas uma: MEDO! Uma pessoa só tem necessidade de controlar a vida de outra pessoa, ou de lhe limitar a sua liberdade, por medo.

Acredito que MEDO é o contrário de AMOR. Onde há medo nunca pode florescer amor pois o mesmo terreno não permite germinar sentimentos tão diferentes. Para que haja amor não pode haver medos, uma pessoa carregada de medos nunca poderá ter grande amor-próprio, simplesmente não é possível (embora para olhos menos atentos possa parecer que sim).

Então por que motivo estas pessoas cheias de medo optam por controlar e limitar a vida dos outros? Vejamos algumas respostas possíveis:

– Porque não acreditam que possam ser merecedoras de amor, que alguém possa gostar delas apenas pelo que são.

– Porque não têm outro modelo, aprenderam que uma relação é assim (provavelmente com os seus pais) e fazem como viram fazer.

– Porque escondem algum segredo (de forma consciente ou não) e querem a toda a força construir uma realidade ‘perfeita’ para que o possam manter.

– Porque carregam uma amargura, raiva, frustração tão grande que não consideram que possa haver felicidade, por isso desconfiam de tudo e de todos.

– Porque não querem enfrentar a realidade, embora sintam que aquele não é o caminho, tudo fazem para manter o outro aprisionado na relação.

Estas podem ser algumas das respostas à pergunta anterior, no entanto convém não esquecer que as relações humanas são complexas e dificilmente haverá duas iguais. Cada relação entre duas pessoas é um contrato que ambos estabelecem, de forma consciente ou não. É importante perceber que cada um entra na relação de livre vontade e nela permanece dessa forma, embora possa não acreditar nisso.

Se temos sempre a possibilidade de decidir, quiçá a pergunta agora seja: Por que motivo alguém escolhe ficar numa relação onde é totalmente controlado? A resposta a esta pergunta não é diferente das anteriores: MEDO. As pessoas aceitam as condições desse tipo de relação por medo. Medo da solidão, da falta de recursos, de não serem merecedoras ou de não serem suficientemente boas. O medo é o denominador comum entre as duas pessoas destas relações, não amor mas medo. É o medo que as une e é ele que sela os contornos da união, e a verdade é que ambas sabem disso.

Nestas situações o importante é que cada um vá tendo consciência do que se passa consigo, daquilo que é e do que quer para si. Este investimento no autoconhecimento permite-nos tomar decisões mais saudáveis, mais de acordo com aquilo que é melhor para nós.

Cada um deverá gerir a sua vida de acordo com o que é melhor para si. No entanto, a haver uma norma esta deveria ser: conhecermo-nos a nós próprios, aceitarmo-nos tal como somos, amarmo-nos incondicionalmente e caminharmos pela vida procurando ser sempre a nossa melhor versão. Isto sim gostaria que fosse NORMAL!

 

(Este artigo foi publicado na 218ª Edição da Revista SIM, em Abril de 2018.)

 

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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