Apego

porAna Raquel Velosoem Comunicação, Desenvolvimento pessoal, Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

Um dos temas mais recorrentes destes meus últimos meses tem sido o apego e a dificuldade que as pessoas sentem em libertar-se de algo, mesmo sabendo que não lhes faz bem. Esta incapacidade para deixarmos ir o que já não é necessário, para libertarmos o que já não nos serve, parece ser um exercício exigente para muitos de nós.

É certo que não somos todos iguais e que alguns têm uma ligação mais forte com o passado, que guardam uma nostalgia dos tempos de outrora e que lhes agrada perpetuar essas memórias. É também certo que nada na vida se mantém inalterado, que o tempo pressupõe avanços e que a vida não anda para trás.

Talvez a dificuldade, e o grande segredo da vida, esteja na capacidade de mantermos o equilíbrio entre as nossas memórias do passado e os sonhos que reservamos para o futuro. Conseguir isto talvez nos exija treino mas na vida não há mestria sem treino…

Para iniciar este treino podemos começar por tentar perceber o que é o apego e por que razão está presente nas nossas vidas. Pessoalmente sinto-o como algo perfeitamente natural e que está intimamente relacionado com outro dos grandes medos da humanidade: a mudança. Aliás, ambos poderão ser faces diferentes da mesma moeda. Resistimos à mudança por apego, ficamos tão presos às coisas do passado que não permitimos que um futuro diferente entre nas nossas vidas, mesmo que digamos que o desejamos.

Para mim o apego não é a grande questão, aquilo que ele esconde sim. Pensemos no seguinte: Será que uma pessoa feliz, emocionalmente equilibrada, com um propósito de vida estimulante, com paixões ativas, sentirá muito apego? E será que tem medo da mudança?

Será que essas pessoas não sentirão que a mudança é a única constante da vida, que há alturas em as mudanças surgem de forma suave e outras em que somos assolados por elas? Será que não sabem também que dessas mudanças mais intensas surgem as nossas maiores evoluções? Creio que sim, por isso aceitam mais facilmente a mudança, sem apego. A verdade é que a história da humanidade é feita de mudanças sucessivas, umas maiores do que outras e até hoje foi isso que nos permitiu evoluir.

Todos nós, se assim quisermos, temos a capacidade de iniciar um processo de transformação interno, aprimorar as nossas capacidades, alterar comportamentos, melhorar atitudes…

Todos nos podemos transformar numa versão melhor de nós mesmos.

Este processo de transformação é interno e impulsionado pela nossa própria vontade. Quando assim é dominamos o tempo e as circunstâncias, nós decidimos quando alteramos o quê e em que direção. Para este processo de transformação interna só é necessária coragem e determinação.

No entanto, na maioria das vezes o gatilho que impulsiona este processo de transformação é externo. Isto é, habitualmente há algo que muda no nosso meio envolvente que faz despoletar um processo de transformações em nós. Por isso vemos muitas vezes relatos de pessoas que se transformaram e transformaram as suas vidas após períodos de grandes mudanças: a perda de alguém, um divórcio, uma crise, uma doença…

Se virmos as coisas deste ponto de vista podemos encarar a mudança como uma bênção que nos pode orientar para um caminho muito melhor nas nossas vidas. É como se as mudanças fossem um GPS que nos permitisse tomar decisões que nunca tomaríamos se elas não acontecessem. Então, podemos também dizer que muitas das mudanças que ocorrem nos podem permitir construir um futuro mais promissor para as nossas vidas.

Então, por que razão resistimos tanto à mudança?

Interrogo-me muitas vezes por que razão determinadas pessoas conseguem acompanhar a mudança com um processo de transformação interno e outras, simplesmente, resistem tentando congelar-se no tempo.

Acredito que as que resistem o fazem por apego é verdade, mas não à vida, nem ao que têm. Apego ao próprio ego, a tudo aquilo que acreditam que são e não querem deixar de ser. As histórias que na nossa cabeça correm sobre quem somos, o que queremos e aquilo em que acreditamos, constituem a maior força bloqueadora das nossas vidas. São estas mesmas forças que nos impedem de avançar rumo à nossa melhor versão.

Iniciar um processo de transformação interno é uma decisão, podemos tomá-la ou não. Mas com a mudança a coisa já é diferente. Como nos é imposta só temos duas opções: ou mudamos, ou a vida muda-nos.

Como em tudo na vida é necessário consciência para ver e sentir o que a situação nos está a dizer e trazer. Ficarmos fechados em nós, com o nosso ego a falar incessantemente dentro das nossas cabeças, de nada adianta. Para iniciar este processo podemos começar por aceitar que aquilo que somos é o melhor que sabemos ser naquele momento e que a mudança com o tempo revelará algo melhor em nós. Aceitar que a vida nos apresenta o caminho e nós temos apenas que o percorrer da melhor forma e com a maior satisfação.

Depois de aceitarmos que assim é talvez seja mais fácil deixar pelo caminho aquela bagagem extra que carregamos e que só atrapalha. À medida que ficamos mais leves avançamos mais rápido e à medida que ficamos mais vazios preenchemos-mos como outras coisas de maior valor…

 

(Este artigo foi publicado na 234ª Edição da Revista SIM, em Maio de 2019.)

 

Author Image

Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


Ana Raquel VelosoApego
Author Image

Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

DEIXE O SEU COMENTÁRIO