Regresso a casa

porAna Raquel Velosoem Desenvolvimento pessoal, Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

Aquela sensação de que algo não está a correr como devia… Aquele desconforto de não pertencermos ao sítio onde estamos… Aquele vazio dentro do peito que mais parece recordar-nos que há um pedaço de nós em falta… Aquele quotidiano desconhecido porque nunca foi por nós sonhado… Será que todos já sentimos isto?

Não creio que esta sensação seja nostalgia ou saudade, não me parece. Esse vazio que muitos de nós sentimos vem de um local bem mais profundo dentro de nós. É uma sensação de desconforto permanente, de não pertencer a lugar algum, de não nos reconhecermos na vida que levamos.

Esta sensação parece que se agrava neste período de férias. Antes porque estamos cansados e queremos sair da vida de sempre, depois porque… não queremos aquela vida de sempre. Regressar a casa tornar-se difícil porque na verdade nós não estamos lá. Quando a nossa alma não está em casa nós dificilmente estaremos confortáveis e em paz.

Mas o que quererá isto dizer?

Penso que em primeira instância quer dizer que é preciso tomar decisões. É preciso fazer algo diferente para que coisas diferentes aconteçam. Perceber o que está mal, sentir as nossas verdadeiras emoções, descobrir o que gostaríamos de fazer diferente, pode ser o primeiro passo para tomar essas decisões.

É preciso ter coragem para parar, encarar a vida de frente e perceber o que queremos dela. Se percorrermos a vida de costas viradas, com medo do que virá, tentando camuflar as nossas emoções e atribuindo as culpas às circunstâncias, o resultado será sempre o mesmo – reproduziremos o passado. Aliás, de costas viradas para o futuro a única coisa que se vê é mesmo o passado.

E por que razão há tantas pessoas a querer viver desta forma? Não será incoerente reproduzir o passado no presente e ao mesmo tempo sonhar com um futuro melhor?

Se formos como sempre fomos e fizermos aquilo que sempre fizemos, os resultados serão sempre os mesmos. Isto parece óbvio! Então, por que razão não nos transformamos numa melhor versão nossa e decidimos fazer as coisas de forma diferente?

A resposta é sempre a mesma: MEDO. Nós temos medo do que não conhecemos. Temos medo que as coisas não corram bem, temos medo que os outros não nos aceitem, temos medo de não sermos suficientemente bons, temos medo que não gostem de nós… TEMOS MEDO!

Por este motivo, ao longo da vida construímos a nossa história, para nos proteger e nos dar aquela sensação de pertença. É uma história cheia de crenças e convicções limitadoras, de crítica e julgamentos, carregada de juízos de valor. É uma história que ao invés de ser vivida com prazer, castra e aprisiona.

Tentamos primeiro perceber quais as expectativas, construímos uma história que seja coerente e depois adaptamo-nos ao papel que nos foi atribuído: dona de casa perfeita, pai ausente, mãe-galinha, mãe-solteira, marido extremoso, empresária bem-sucedida, filha cuidadora, bom aluno, adolescente rebelde, professora atenta, amigo presente…

Quanto mais investimos no nosso papel, mais nos perdemos de nós. Parece que ao construir o guião e ao desempenhar o papel de acordo com aquelas que são as expectativas de todos, nos alheamos da nossa verdadeira essência. É isso que causa o afastamento e a sensação de não estarmos a viver a nossa vida.

A menos que descubramos quem somos e qual é o nosso caminho, nunca nos conheceremos nem saberemos a grandiosidade da vida que nos estava destinada. Vivendo um papel que não é a nossa versão autêntica, estaremos condenados a viver uma vida que não é a nossa, sempre na mais profunda solidão porque nunca chegaremos até nós.

 

Imagine que conhece uma nova pessoa e que esta acaba de se apresentar. Toca-lhe a si agora apresentar-se e dizer quem é. Imagine que não pode dizer nada a respeito do seu passado, de quem foi ou do que fez. Como se apresentaria?

Ficam aqui umas dicas do que poderá dizer. Diga o que gosta de fazer e sentir, com o que sonha, qual o contributo que quer deixar neste mundo, o que o faz feliz, em que áreas sente que pode fazer a diferença, quais os valores que o movem, para onde quer ir, que sonhos tem, como se vê no futuro, o que planeia concretizar…

Este exercício ajudá-lo-á a descobrir-se, a perceber onde está e o que quer da vida. Penso que será importante nesta fase de regressos perceber um pouco mais sobre nós porque na verdade é muito difícil regressar a uma casa onde nós não estamos. Descubramos o nosso EU mais autêntico, aí sim estaremos sempre em casa e em boa companhia.

(Este artigo foi publicado na 207ª Edição da Revista SIM, em Setembro de 2017.)

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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