Ponto de Partida

porAna Raquel Velosoem Desenvolvimento pessoal, Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

 

Reconhecer onde queremos chegar ou o que queremos alcançar é algo que conseguimos fazer com relativa facilidade. Todos determinamos objetivos, sonhamos com vitórias ou abraçamos novos desafios. Estas ações transportam-nos para um lugar onde nos é possível visionar o ponto de chegada, a concretização daquilo que almejamos. No entanto, o que determina a concretização dos nossos sonhos, objetivos ou desafios é o ponto de partida.

Saber onde queremos chegar é importantíssimo, no entanto saber de onde partimos é o que mais nos condiciona. Pode parecer estranho pensar desta forma, mas teremos que fazer o exercício de ir além de alguns conceitos pré-formatados que a nossa mente nos impõe.

Pensemos em algo que nos motiva, algo que queremos alcançar ou desejamos muito. Um novo emprego, uma relação, a concretização de um projeto, uma vida com mais amigos, viagens, … Qualquer coisa que queiramos mas que ainda não tenhamos ou sejamos. Pensando nisso em concreto, vamos dar atenção às sensações que temos no corpo quando as imagens dessa conquista estão na nossa mente. Essa sensação é o ponto de partida e irá condicionar o decorrer de toda a experiência, inclusive o final.

E, a pergunta que agora faço é a seguinte: Alguma vez quando sonhou com algo que muito desejava sentiu medo? Pois…, aqui está um ponto de partida.

Quando quereremos algo e em simultâneo sentimos medo, que instrução estaremos nós a dar ao nosso corpo? Entendamos também que o cérebro é um órgão que faz parte do corpo e, como tal, precisa da coerência do todo. Qualquer dissonância detetada pelo corpo precisa de imediato de ser resolvida. Embora as nossa palavras possam dizer: Quero muito isto, o que o corpo sente é medo. Ora, se determinada coisa nos amedronta, por que razão havemos nós de a querer na nossa vida? Na minha opinião tudo o que acontece a seguir é determinado pelo medo que sentimos, pois essa é a única motivação que o nosso corpo entende. Então, seguindo as instruções que as nossas emoções lhe deram, tudo fará para nos manter afastados disso que tanto nos amedronta.

Uma emoção é como um GPS que nos conduz. Podemos encarar a emoção como um mecanismo interno que permite que a energia se movimente para onde nós queremos. A própria origem da palavra nos diz isso. Emoção deriva do latim emotione que quer dizer movimento, ação de mover. Uma emoção pode então também ser encarada como energia em movimento que tem a função de nos orientar na tomada de decisões.

Então, o que entenderá o nosso corpo e que ação tomará:

– Quando sei que não estou bem num local mas tenho medo da mudança?

– Quando quero muito concretizar um projeto mas tenho medo de falhar?

– Quando envio CVs mas tenho medo de não ser suficientemente boa para as funções?

– Quando quero libertar-me de um casamento infeliz mas tenho medo de estar só?

– Quando digo que quero amor e uma relação mas tenho medo de sofrer?

– Quando quero fazer algo mas tenho medo das críticas e julgamentos dos outros?

– …

O que entenderá o meu corpo quando digo que quero algo mas sinto medo?

O corpo assume como instrução a intenção determinada pela emoção. Isto é, se sinto medo, a instrução que ele entende é: protege-te e afasta-te do que te amedronta!

E então as palavras não fazem qualquer efeito? As palavras podem fazer muito efeito nas nossas vidas, até magia quando necessário. No entanto, numa situação de conflito interno, quando a palavra não está alinhada com a emoção, o corpo não a considera como importante ou prioritária.

O que aqui acontece é que conscientemente dizemos que queremos e, a nível não consciente ou subconsciente, dizemos: tenho medo disso, por isso quero que fique longe de mim. Neste confronto e conflito, o consciente sai sempre a perder. Por essa razão, nos é tão difícil concretizar algumas coisas que achamos que muito queremos, mas das quais temos medo. Como o medo é o ponto de partida, o resultado está condicionado por esta emoção.

Então, o que fazer quando os nossos mundos conscientes e não conscientes estão em conflito e a dar instruções diferentes? A primeira coisa é perceber o que esta situação nos está a dizer sobre nós. Qualquer emoção contém informação que nos pode ser útil, inclusive o medo. Tornarmos consciente o nosso medo é o primeiro passo para alterar o ponto de partida.

Assumamos que temos medo, depois percebamos como o sentimos e que informação nos dá. Ao trazermos luz aos nossos medos deixamos de os ter escondidos nas catacumbas sombrias do nosso inconsciente. Claro que para isso temos que os sentir e não fingir que eles não existem.

Tudo na vida tem um lado luz e um lado sombra. Um medo iluminado pode também revelar uma luz que há em nós. Se temos medo de sofrer por amor, quiçá isso revele a nossa imensa capacidade para amar. Se temos medo de confiar, talvez isso nos mostre a retidão dos nossos valores e de como os honramos. Se temos medo de arriscar num projeto, quiçá isso nos revele as imensas competências que temos e a vontade que em nós existe de concretizar algo.

Como ponto de partida podemos então tirar os nossos medos da sombra e assim revelar ao mundo a luz que há em nós. Iniciando desta forma tenho a certeza de que gostaremos do ponto de chegada.

 

(Este artigo foi publicado na 226ª Edição da Revista SIM, em Novembro de 2018.)

 

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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