Conversas Saudáveis

porAna Raquel Velosoem Comunicação, Desenvolvimento pessoal, Em Destaque Deixe um comentário

 

O ser humano desenvolveu a linguagem para que esta lhe permitisse conectar e criar laços com outros humanos. A necessidade de comunicar vai muito mais além da pura transmissão de informação para satisfazer uma necessidade básica…

Comunicar é um imperativo existencial da condição humana. Precisamos de criar uma conexão com outros seres para dar significado à nossa própria existência. Conversar com alguém poderá ser a expressão máxima dessa ligação, pois nessa troca de tempo, atenção, experiência e emoções, sentimo-nos importantes para a pessoa com quem estamos e fazemo-la sentir o mesmo. Conversar assim cria relações e faz-nos sentir bem.

Mas nem todas as conversas que temos nos fazem sentir dessa forma. Aliás nos dias de hoje as conversas assumiram características bem diferentes…

Percebi isso quando dei atenção a uma pergunta que fazia aos meus clientes aquando das nossas conversas. Enquanto eles me relatavam um episódio dizendo-me: “Estávamos a conversar…, Ela disse-me que…, Enquanto falávamos…, Ele perguntou-me se…”, eu precisava sempre de lhe perguntar: Como? Por mensagem?

Continuo a fazer essa pergunta, quiçá cada vez mais, e a resposta que obtenho de quase todas as vezes é: SIM. A “Conversa” a que se referem é sempre através de uma rede social, ou telemóvel, nunca presencial.

Comunicar é um ato complexo que exige sabedoria, conversar é muito mais do que abrir a boca e falar. Se presencialmente podemos ler as expressões faciais, gestos, e tudo o que a linguagem não-verbal nos permite inferir, através das redes sociais isso não é possível. Não raras vezes as trocas de mensagens acabam numa série de mal-entendidos que geram mais umas quantas mensagens, na tentativa de resolver algo que teria sido simples de dizer se tivessem falado presencialmente.

Ora, aqui reside a grande questão. Muitas das pessoas que estabelecem essas “conversas virtuais” não se conhecem ou mal se conhecem. Mesmo que saibam da existência uma da outra há já algum tempo, na verdade não se conhecem, apenas se vêem com uma determinada frequência nas redes sociais e, ocasionalmente, cruzam-se no mundo real (por vezes sem se falar…).

Mas esta patologia das “conversas virtuais” também se manifesta em casais e em família. Há casais que têm dificuldade em conversar e acabam por tentar resolver as situações das suas vidas por mensagem. Outras pessoas também preferem enviar mensagens para comunicar com familiares que vivem na mesma casa…

Não tenho nada contra as mensagens e acho até que podem ser uma forma extraordinária de transmitir afeto, mimo, carinho e atenção pelas pessoas. São também uma forma excelente de transmitir informação e a verdade é que nos facilitam a vida de forma soberba.

Mas quando a questão é comunicação, conexão, relação e entendimento entre dois seres humanos, nada há de melhor do que uma boa conversa presencial. Isto sim é saudável e dá saúde!

Conversar é bem mais do que uma mera troca de mensagens. Conversar exige disponibilidade para ouvir e acolher a verdade do outro, intenção de promover o entendimento, capacidade para manifestar a nossa opinião e respeitar todas as outras. Quando uma conversa é boa todos saem dela mais ricos, mais felizes e sem dúvida mais saudáveis.

Uma conversa não é um mero débito de palavras. Numa boa conversa o que faz a verdadeira diferença são os olhares cúmplices, os sorrisos de satisfação, os gestos de carinho e as emoções que se geram. Tudo isto nos faz sentir queridos, acompanhados, compreendidos e é isso que dá sentido às nossas vidas. Quiçá seja mesmo esta a solução para acabar com o sentimento de solidão e desconexão que assola a nossa sociedade. Começar a promover encontros saudáveis, conversas onde nos conectemos verdadeiramente com o outro, sem filtros e de forma autêntica.

A palavra conversar vem do latim Conversare que significava conviver com alguém, virar a nossa atenção para uma pessoa. Tal como a origem da palavra indica, não o podemos fazer sós, precisamos da presença de outros. Creio que pela nossa saúde emocional precisamos de recuperar este ato ancestral de conexão entre os seres humanos.

Comecemos então por praticar nas nossas casas, com os nossos familiares e amigos. Sejamos nós a mudança que queremos ver no mundo. Se queremos relações saudáveis aprendamos então a conversar de forma saudável!

 

(Este artigo foi publicado na 231ª Edição da Revista SIM, em Fevereiro de 2019.)

 

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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