Quero-te…

porAna Raquel Velosoem Comunicação, Desenvolvimento pessoal, Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

 

É sempre bom sentir que alguém nos deseja e nos quer na sua vida. Perceber que a nossa existência faz a diferença na vida de alguém e que essa pessoa nos quer perto de si, parece ser algo que dá valor às nossas vidas…

Recentemente dei por mim a pensar sobre este assunto e acabei por perceber que este “QUERO-TE” nem sempre se revela algo bom… Quando alguém nos quer, poderá nem sempre ser da melhor forma. Para além nos quererem bem, é também importante que nos queiram da melhor forma para nós.

Dito de outra maneira, quando alguém nos quer pode ser que nos queira não pelos melhores motivos. Há formas de querer o outro nas nossas vidas que podem ser profundamente egoístas e que em nada contribuem para o nosso bem-estar ou para a saúde da relação.

Às vezes esse QUERER é apenas uma manifestação de outras coisas das quais não temos consciência ou não queremos ver. Nessas situações acabamos por viver em fuga, acreditando que, de querer em querer, conseguiremos resolver todas as nossas dificuldades existenciais e frustrações.

Então, quando alguém nos diz QUERO-TE, como podemos nós saber por que motivo nos quer?

A minha resposta é igual a tantas outras que já dei: A nossa linguagem denuncia sempre a verdadeira intenção pela qual fazemos as coisas. Nesta questão em particular posso simplificar e distinguir duas interpretações da frase: Quero-te por mim? Ou, quero-te por ti?

Basicamente esta distinção ajuda-nos a perceber se o outro nos quer porque sente que ele próprio é pouco ou se, pelo contrário, acha que nós somos muito. De forma mais clara posso dizer que o QUERO-TE POR MIM é dito por uma pessoa que revela alguma insegurança e baixa autoestima, que precisa de nós para que a completemos e satisfaçamos as suas necessidades. Essa pessoa quer-nos para que façamos dela algo mais do que aquilo que sente que é.

Pelo contrário, o QUERO-TE POR TI é dito por alguém que nos aprecia e gosta de nós, que nos considera uma mais-valia na sua vida e por isso nos quer por perto. Nestes casos, não nos sentimos necessários mas sim reconhecidos e apreciados. Isso faz toda a diferença na qualidade da relação…

O QUERO-TE POR MIM proferirá frases como:

– Sem ti não consigo ser feliz;

– Preciso de ti para viver;

– A minha vida só tem sentido contigo perto de mim;

– Tu és a minha razão de viver;

– Fazes-me feliz, só tu mais ninguém…

Ora, estas frases são proferidas por alguém provavelmente pouco confiante e inseguro que precisa que outra pessoa funcione como motivação, muleta, amparo ou outra qualquer coisa que lhe permita viver. Quem assim fala não encontra uma razão para viver em si mesmo e acaba por delegar ou transferir para outro esse ónus.

É óbvio que a literatura, os romances e os filmes nos influenciam muito. É também verdade que a nossa linguagem carrega uma carga cultural muito forte. O fado e esta cultura fatalista que tanto nos caracteriza parecem inundar com algum dramatismo e sofrimento a forma como “nos falamos” nas relações e no Amor.

Sem querer fazer uma apologia ao nosso desenraizamento cultural, sugiro que possamos aprender outro léxico e uma nova forma de comunicar mais eficiente para nós. Neste caso, a eficiência da linguagem mede-se pelo grau de satisfação nas nossas vidas, pela saúde das nossas relações bem e pela felicidade que sentimos.

Se tivermos consciência daquilo que a nossa linguagem diz sobre cada um de nós e de como esta condiciona aquilo que alcançamos na vida talvez comecemos a estar mais atentos. Nessa altura, será certamente mais fácil relacionarmo-nos com pessoas que nos queiram bem e pelos melhores motivos.

O QUERO-TE POR TI proferirá frases focadas nas nossas características e qualidades, não nas suas próprias necessidades e fragilidades Este QUERO-TE dirá:

– Quero-te porque és especial;

– Quero-te porque adoro a tua forma de ser;

– Quero-te porque és o máximo;

– Quero-te por gosto muito da pessoa que és;

– Quero-te e estou disposto a dar-me!

 E como podemos saber nós se alguém verdadeiramente nos quer?

Para mim a resposta é simples: essa pessoa está disposta a dar-se, a mostrar-se tal como é acreditando que isso nos fará quere-la também. A autenticidade é o mais sublime alimento do desejo, pois torna-nos verdadeiramente misteriosos…

O querer não deve ser uma questão de conquista ou caça, também não pode ser um pedido desesperado ao qual acedemos por pena ou coação, muito menos uma compra de atenção com afetos ou prendas.

A melhor forma de sabermos se alguém nos quer é sentirmos que faz um esforço para nos compreender, que nos respeita e admira pelo que somos. Essa pessoa nada nos pede e aceita com gratidão tudo o que estamos dispostos a dar.

Quando alguém nos quer dessa forma, brilha na nossa presença simplesmente porque se ilumina com o nosso brilho. Nessa altura saberemos que aquele QUERO-TE é genuíno…

 

(Este artigo foi publicado na 232ª Edição da Revista SIM, em Março de 2019.)

 

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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