Expectativas

porAna Raquel Velosoem Comunicação, Desenvolvimento pessoal, Em Destaque, Emoções e Relações Deixe um comentário

 

O tema das expectativas é comum a todos nós e manifesta-se em todas as áreas da nossa vida. Na verdade as expectativas que temos, embora as possamos projetar nos outros, são sempre relativamente à nossa própria vida…

Recentemente pediram-me para falar sobre “Gestão de Expectativas”. Mal ouvi a frase algo em mim me mostrou que o tema não estava bem definido ou, quiçá, não estive verbalizado da forma mais correta. Depois de perceber o que sentia decidi que iria falar sobre criação de expectativas e gestão da frustração, pois isso era o que fazia sentido para mim. Aprender a não criar expectativas será a melhor forma de não as ter. Claro está que depois de as ter, e de as ver não realizadas, teremos que aprender a gerir a nossa frustração.

Então a pergunta inicial é: Por que razão criamos nós expectativas? A única resposta coerente para mim é: Por necessidade e falta de fé. Nós criamos expectativas porque necessitamos de acreditar que podemos ser felizes e que a nossa vida pode ser como imaginamos ou queremos que seja. E como a necessidade aguça o engenho acabamos por encontrar formas de delegar nos outros esta tarefa de criarmos a vida que queremos ter…

O que é importante referir é que as expectativas causam danos, a nós e aos outros. Quando temos expectativas há sempre uma versão menos bonita daquilo que somos a manifestar-se, isso, para além de não ser nada atraente, pode ser profundamente deselegante e ofensivo.

Quando eu tenho expectativas relativamente a outra pessoa, seja um companheiro, filho, amigo e as manifesto, acabo sempre por dizer o seguinte: Aquilo que tu és não é suficiente, preciso que deixes de ser autêntico e te ajustes à imagem que eu tenho de ti, para que a minha vida seja como quero.

Quando há expectativas não há espaço para autenticidade, estamos sempre à espera que tudo seja como imaginamos e não conseguimos ver a vida tal como é. A expectativa vive no passado a tentar convencer os outros a criar um futuro com base nisso. Essa não é a forma de criar uma boa vida e um bom futuro…

Uma pessoa com muitas expectativas relativamente à vida e aos outros, tem um discurso muito característicos. Habitualmente a sua linguagem é cheia de ideias pré-concebidas, o seu discurso é muito opinativo e crítico. São pessoas pouco permeáveis às ideias dos outros e numa conversa habitualmente optam por tentar convencer os outros que estão certas, ao invés de partilhar as suas ideias e aguardar feedback. Esta falta de recetividade revela também falta de empatia, que acaba por ser a competência base das relações autênticas e saudáveis.

A possibilidade de não estarem certas é, para elas, assustadora e põe em causa toda a sua existência, por isso devem defender a sua posição e mostrar sempre o quão errados os outros estão. E aqui percebemos algo sobre as expectativas: quem as tem vive em sofrimento. A questão não são as expectativas mas sim a impotência que sinto para resolver as dores que carrego dentro de mim. Como não as quero enfrentar tento fantasiar com um mundo onde elas não existem e onde tudo é como eu quero. Pois… a grande questão é que esse mundo não existe e a menos que desçamos à terra nunca iremos ser felizes.

O maior dano da criação de expectativas é que acabamos por não viver a nossa vida.

Na tentativa que a vida seja algo que não é, acabamos por viver numa bolha que nos isola do mundo e dos outros. Isso só acentua a dor que já sentimos. Em última instância a expectativa é uma forma frustrante de nos auto-engarmos, pois com ela tornamo-nos cegos e deixamos de ver a vida que nos rodeia…

Para deixar de criar expectativas e aceitar que a vida é simplesmente como é, teremos que com coragem tomar a decisão de o fazer. Óbvio que este despertar pode ser doloroso e que nos fará enfrentar alguns dos nossos maiores medos: solidão, rejeição, falta de amor… Mas a verdade é que só assim nos encontraremos e poderemos viver a vida que tanto desejamos.

Para termos essa vida que queremos temos que nos começar a dar aquilo que exigimos aos outros. Aqui ficam algumas dicas de coisas que todos precisamos de nos dar:

– Aceitação: Perceber que somos muito e o bastante, aceitemo-nos tal como somos porque a perfeição reside na autenticidade do ser em pleno.

– Respeito: Ninguém poderá ser respeitado se não se respeitar. O respeito não se exige, merece-se.

– Admiração: Todos temos algo admirável dentro de nós, cabe-nos a nós próprios descobrir isso e revelá-lo ao mundo.

– Amor: Ninguém dá o que não tem, portanto o amor-próprio será a primeira forma de amor.

– Compaixão: Esta é a base do amor, a cama onde colocamos os ingredientes que nos tornam amáveis e nos permitem amar. Toda a compaixão que nos damos e damos ao mundo recebemos em forma de amor.

– Gratidão: Sejamos gratos pela nossa jornada, por viver uma vida com sentido e plena de emoções. Cada um de nós está a fazer o melhor que sabe e isso já é motivo suficiente para estarmos gratos.

Em vez de criarmos expectativas, criemos a vida que merecemos ter, isso sim faz todo sentido.

 

(Este artigo foi publicado na 233ª Edição da Revista SIM, em Abril de 2019.)

 

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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.


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Ana Raquel Veloso

Licenciada em Ciências da Comunicação, Pratictioner em Programação Neurolinguística e Pós-Graduada em Neuropsicologia Clínica.

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